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A ARTE DE ADVOGAR

                   

       Advogar é uma arte. Com certeza. Simples e complexa como interpretar uma sinfonia de Beethoven. Ou como examinar um denso romance de Dostoievski.

       Em Arte Del Derecho, Carnelutti assegura, com exatidão, que "a interpretação jurídica e a interpretação artística não são coisas diversas mas a mesma coisa. Se o Direito - prossegue - não fora arte, não haveria interpretação em seu âmbito. A interpretação jurídica é uma forma de interpretação artística; se não tivesse esse caráter, não seria interpretação. A grandeza de Vitorio Sciajola e de Artur Toscanni pertencem a uma só categoria."

       Nada mais verdadeiro. O jurista quase sempre estará diante dos intricados labirintos das relações humanas e, por isso, ao interpretar o ordenamento jurídico poderá jogar o homem para a luz ou para o abismo.

       Interpretar uma lei é o mesmo que se lançar sobre a partitura musical, por exemplo, para conhecer os mistérios e os segredos do compositor e torná-los mais belos aos ouvidos da multidão.

       A arte de advogar exige antes de tudo paixão. Era impressionante a paixão com que Rui Barbosa e Sobral Pinto defendiam as suas causas.

       Aliás, a paixão é a condutora do mundo, conforme ressalta, o poeta pernambucano Ângelo Monteiro, em poema publicado no livro Armorial de um Caçador de Nuvens.

       E mais ainda: para conseguir alcançar arte e paixão, o advogado precisa de estratégia. Precisa conhecer a "Arte da Guerra", mesmo para construir a paz. A advocacia é um dos poucos ofícios em que se lida com um adversário ante a triangularidade da relação processual. Para vencer precisa de estratégia e de muita luta.

       A arte de advogar exige concentração. Quanto mais concentrado no que você faz mais chances de êxito você tem.

       O advogado deve em sua arte, nos tempos atuais, mais do que nunca, assumir a dimensão social da profissão.

       O Papa Paulo VI, falando aos membros do Conselho da Union Internacionale des Avocats, afirmou que o advogado é um homem a procura da verdade, inclusive a "verdade das almas, sobretudo, quando delas recolhe, tão comumente, os mais íntimos segredos. Ninguém, talvez, afora o sacerdote, conhece melhor que o advogado a vida humana sob os mais variados aspectos, os mais dramáticos, os mais dolorosos, os mais viciosos, por vezes, também, freqüentemente, os melhores".

       O jurista Mauro Capelletti escreveu que "sob a ponte da Justiça passam todas as dores, todas as misérias, todas as aberrações, todas as opiniões políticas, todos os interesses sociais. Justiça é compreensão, isto é, tomar em conjunto e adaptar os interesses opostos: sociedade de hoje e a esperança de amanhã".

       O ranço individualista e elitista da advocacia deve ser afastado para um maior compromisso social da profissão.

       Os advogados representam, perante um dos poderes do Estado, os anseios e aspirações da sociedade.

       E nessa tarefa, devem procurar a correta aplicação da lei e sobretudo a perseguição do justo, contribuindo, assim, para o aprimoramento da vida em sociedade.


(Artigo publicado no Diário de Pernambuco de 15.10.1999)

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